Banner

Home
Quem é Baraldi
Personagens
Fotos
Cartuns e ilustrações
Charges
Jogo do Roko-Loko
Lojão
O que falam dele
Entrevistas
Prêmios
Podcast
Livro de visitas
Links
Blog
Twitter
Youtube
Fale comigo

 

Login



Jornal do Judiciário

Jornal do Judiciário: ENTREVISTA COM O CHARGISTA MÁRCIO BARALDI


O chargista Márcio Baraldi, lançou em abril – durante a 17ª Bienal do Livro – os livros “Moro num país tropiCAOS!” e “Todas as cores do humor”. O primeiro é uma coletânea de charges sobre o governo FHC, no qual a política neoliberal, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a questão agrária, o preconceito racial, social e sexual são tratados com críticas pra lá de ácidas.
Para Ziraldo, que escreveu um dos prefácios de “país tropicaos”, as charges de Baraldi “quando tocam de leve o alvo, deixam a vítima pronta para ir pra UTI”.
Os livros podem ser encontrados em todas as livrarias.


Quanto tempo você levou para produzir os dois livros?
Os dois livros juntos, levaram mais ou menos uns nove meses para sair. Foi um parto. Eles só saíram porque eu estava com férias atrasadas no Sindicato dos Bancários e tirei essas férias e passei um mês em casa, fazendo os dois livros. Na verdade, principalmente o “Tropicaos”, o pessoal já estava me cobrando há tempos. Queriam um livro de charges do governo e eu nunca tinha tempo para fazer. Aí aproveitei a cobrança que tinha também para fazer o outro, que é de uma editora para a qual eu presto serviços e que tem vários selos – de negros, mulheres, gls – e fiz os dois.

Como você começou a fazer charges e a atuar profissionalmente nessa área?
Eu já nasci desenhando. Sou daqueles moleques que desde pirralho ficava infernizando a minha mãe. Desenhava na toalha, na parede, pegava tijolo e desenhava na parede. Não parava quieto. Era muito espevitado. Brincava de tudo, jogava bola, quebrava tudo, era bem bagunceiro... Os vizinhos viviam enchendo o saco na minha casa. Mas, por outro lado, tinha esse papo de, quando davam um papel na minha mão eu me acalmava. Então o pessoal lá em casa começou a ver isso: "dá uma pilha de papel pra esse moleque ficar quieto". E comprava um monte de canetinhas daquelas hidrográficas pra "acalmar o Marcinho". E eu ficava sossegado. Outra coisa que eu adorava eram os gibis. Até hoje eu tenho uma pilha em casa daquela época. Sempre tive vocação para o desenho e paixão pelos quadrinhos. Tá no sangue!
Depois, meu pai era metalúrgico e nós [minha família] somos do ABC – eu sou um produto típico do ABC, e aí eu comecei a trabalhar no Sindicato dos Químicos. Eles me chamaram pra trabalhar lá, para ilustrar um jornalzinho. Isso foi nos anos 80 eu era moleque, tinha uns 14 anos. E isso pegou na veia. O PT tinha acabado de nascer, tinha  acabado de rolar aquelas greves históricas lá do ABC e aquilo me influenciou imensamente. Na época eu estudava numa ETI [Escola Técnica Industrial] lá em São Bernardo, ou seja eu estava mergulhado naquele clima operário até o pescoço. E quando eu entrei no sindicato, falei "é isso mesmo". Aí comecei a juntar a política com o humor, ler Henfil – que também me influenciou bastante na época.Daí, não parei nunca mais.

Você hoje trabalha em quantos sindicatos?
Nos Bancários estou fazendo 11 anos e continuo nos Químicos do ABC, onde estou fazendo uns 15 anos agora. Presto serviços aqui para o Sintrajud, para os Metroviávios, os Bancários do ABC, a Apeoesp, o Sindicato dos Psicólogos, Sindsaúde, Médicos. Também trabalho em outros veículos, até para não ficar meio viciado. Faço muitas charges para revistas de rock, etc. Sempre em órgãos que respeitam a minha linha política. Quando as pessoas identificam a minha linha e dizem "é legal, Márcio, pode ser por aí" tudo certo. Tem outros lugares, onde a linha é muito fechada, muito conservadora, aí é problema. Eu não me encaixo muito. Até revista erótica eu faço, desde que me deixem à vontade e que eu possa falar de tudo. Por exemplo, uma vez quando afundou a plataforma da Petrobras eu coloquei o tema numa historinha erótica (risos). Acredite se quiser. Era uma coisa meio assim: a menina mergulhava no oceano e encontrava o Namor – que era um homem submarino –. No meio do namoro com o Namor, ele falava para a menina "agora vou te mostrar uma coisa supertriste" e levava a menina para ver a plataforma. Aí ele falava pra ela: "Isso aqui é culpa daquele povo da superfície, que não sabe votar direito, e tal e tal". E assim vai, com imaginação, você mistura uma coisa com a outra (risos).
Quando teve o apagão também. Eu fiz uma história erótica que era um sarro. O casal estava lá namorando e, de repente, apagava a luz. Aí chegava um cara lá, um burocrata do Fernando Henrique e ficava segurando uma vela para o casal. Aí o casal perguntava: "Que é que você está fazendo aqui?" e o cara respondia: "É que eu sou do Ministério do Apagão, minha obrigação é ficar aqui segurando vela pra vocês." E faz o maior sucesso, as pessoas gostam quando você respeita a inteligência delas.

O livro sobre a questão GLS saiu a pedido de algum setor do movimento GLS?
A editora é independente, não tem vínculo com nenhuma ONG, partido ou movimento em si. Mas, a dona da editora, Laura Bacellar, que é lésbica e uma mulher maravilhosa, uma superjornalista e editora, gostou da minha linha de trabalho. O que ela gostou no meu trabalho tem haver com o fato de eu ter vindo do movimento sindical, ter aprendido a fazer um humor politicamente correto, mas também sem ser aquela coisa panfletária que não tem graça. Até então não tinha nenhum livro assim no Brasil. Tinha aquelas coisas tipo "piada de bicha", da "bichinha que vai na padaria comprar um salame" ou da "da loira que é sempre a burra" ou do “caixão de preto", etc. Eu nem critico quem faz isso, cada um faz o humor que quer, mas para mim não dá. Sou criado na imprensa sindical e trabalho com isso há quase 20 anos. Não dá para fazer um negócio desses. Não gosto de estereótipos. É uma editora independente, mas que segue uma filosofia de esquerda, faz livros que resgatam a auto-estima desse público específico. Ela já estava cansada de ver livros que tratam essas pessoas como coitadas. Aquelas coisas da ‘mina’ que se descobriu lésbica e que, por isso, tinha que viver com esse ‘martírio’ para o resto da vida dela. Então, ela [a editora] viajou para o exterior e conheceu outras editoras que trabalhavam nessa linha humanista. Fundou uma editora e, depois, nós nos conhecemos e ficamos parceiros. Ela tem uma linha bem progressista para a sociedade como um todo, é uma pessoa de esquerda, que vota no PT e a gente combinou superbem por causa disso.

Você já fez ou pretende fazer outros trabalhos nessa área?
Já ilustrei uma pá de livros de outros autores e também o site da editora, que é bem bacana. Tem até uma seção de humor no site. Agora, saiu esse livro, que é meu mesmo.

Como você vê a produção de charges no Brasil hoje?
Eu nem fico muito à vontade de ficar comentando o trabalho dos outros chargistas, porque a charge é uma coisa muito pessoal, depende muito da formação de cada um. É como música. Você dá um violão na mão de dez caras diferentes, cada um vai tocar uma coisa. Eu acho que, logicamente, a princípio, as charges têm sempre que ser politizadas, mas você vê tudo quanto é tipo de charges por aí: das ingênuas às reaças, mas não gosto de citar nomes até porque são colegas. Também depende muito do veículo em que o cara está. Eu conheço caras que trabalharam em jornais grandes e tiveram charges censuradas, sem conversa e ponto final.

Exato. Hoje são poucos os chargistas que conseguem furar esse bloqueio, não é verdade?É são poucos. De fato, tem alguns chargistas que têm mais liberdade pelo tempo todo que têm de estrada e pela credibilidade que conseguiram conquistar, o que certamente não foi uma coisa fácil. O Angeli, por exemplo, acho que é um cara que desfruta disso na Folha de São Paulo. Porque a gente sabe que na Folha, quando o Covas estava vivo, por exemplo, era meio proibido bater no Covas. Assim como, quando o Diário Popular era do Quércia, era proibido bater no Quércia. Muitas vezes o cara é obrigado a se encaixar nos limites de um jornal grande. Por isso, eu particularmente – sem criticar quem está nos grandes jornais – sempre me identifiquei muito com a imprensa sindical e estou nela a vida inteira. Procurei outros veículos, coisas de banca, mas sempre com empresas que respeitam a minha linha.

Fazer charge política no Brasil é fácil, com os políticos que a gente tem?
Em termos de inspiração é ótimo. Tem políticos folclóricos, como Antônio Carlos Magalhães. Tem um tipo de político, que ainda existe no Brasil, e que são um prato cheio para nós como o Maluf, esses dinossauros que têm uma política completamente ultrapassada, pré-histórica mesmo. Esses caras fornecem muito matéria-prima para a gente. Não é muito fácil viver só disso, porque você tem que procurar mil frilas, trabalhar que nem um doido, e tal. Esse é o lado meio duro da coisa. Mas é uma profissão bem assim: a gente sofre, mas se diverte!


Entrevista realizada por Luciana Araújo
para o Jornal do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário
em setembro de 2002

 


Copyright © 2004-2009 – Marcio Baraldi – Por SGuerra@dEsign