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Paixão pela Imprensa Sindical

MÁRCIO BARALDI:

PAIXÃO PELA IMPRENSA SINDICAL

Por Gislene Madarazo


Márcio Baraldi é um desses jornalistas que tiveram o coração fisgado pela luta dos trabalhadores. Chega a confessar que, se depender dele, não deixa a imprensa sindical jamais. Esse amor nasceu aqui, no Sindicato dos Químicos do ABC, há exatos 15 anos.
Para homenagear este nosso companheiro de trabalho, pensamos, nada melhor do que uma entrevista. Que nada! Márcio é daquelas pessoas que precisam ser vistas. A riqueza da sua comunicação não está só nas palavras emitidas, mas nos gestos, nas interlocuções, na força da sua imagem... tal qual seus cartuns. Por isso, leitor e leitora, solte a sua imaginação e conheça um pouco mais da história do nosso Sindicato neste papo descontraído com o nosso irreverente cartunista.

Como você veio parar no Sindicato?

Eu vim na metade dos anos 80 para trabalhar, mas nasci e moro aqui perto e tenho até uma relação muito interessante com este Sindicato. Eu brinquei muito aqui quando era criança. Onde hoje tem o estacionamento, antigamente era tudo aberto, sem portão nem grades, e nos fins de semana durante o dia a molecada jogava bola, à noite isso aqui era um motel – os casais vinham e só se via os carros balançando (risos). Eu jogava bola direto aqui. Como naquela época era um sindicato pelego, não tinha mobilização nenhuma, nunca tinha assembléia, mas, em compensação, tinha baile e festa todo o fim de semana.

Festas da categoria química?
Não, o sindicato alugava o espaço, como um salão comercial. Naquele tempo o sindicato era como uma associação dessas para se jogar dama, não tinha nada de política. A gente, com 11,12 anos, entrava de bicão nessas festas nos fim de semana(risos).

Você entrou aqui quando a oposição venceu as eleições?
É, por uma coisa de destino. Teve aquelas greves históricas no começo dos anos 80 em São Bernardo, aí começou a pegar fogo o sindicalismo na região. Eu estudava em São Bernardo e vi tudo aquilo acontecer. E aí no meio daquela geração tinha um pessoal químico, que era o Agenor Narciso, o Remigio Todeschini, o Drumond, o Edilmo, o Felipe e mais uma turma. Essa turma mobilizou a categoria e no final de 82 conseguiu pôr os pelegos para fora. A oposição pegou o Sindicato falido, não tinha política, não tinha trabalho de base, e aí os novos diretores resolveram criar um departamento de imprensa.

Os pelegos não tinham jornal?

Tinham um jornal que saia a cada três meses e que eles soltavam só pra dizer que tinham. Era um tablóide, em papel jornal, chamava SINDIQUIM já. Sabe o que tinha no jornal? Receita de bolo, coluna social – coisas como a filha de fulano acabou de completar 15 anos e a festa de debutante foi lindíssima, era assim. Não tinha nada. Era totalmente pelego, uma coisa social, um jornal de futilidades.

Você veio, então, para montar esse departamento de imprensa?
Sim. Quando a oposição ganhou o Sindicato,resolveu montar um departamento de imprensa e transformar o Sindiquim num jornal combativo,com charges políticas,cartilhas didáticas em quadrinhos e tal. Nessa eu vim pra cá.

Como funcionava a imprensa do Sindicato nessa época?
O departamento era uma salinha, só tinha uma máquina de escrever, não tinha computador, não tinha nada. Era o redator e eu, que montava o jornal, colava, desenhava, fazia os títulos à mão. Era tudo no sangue, suor e lágrimas mesmo. 

Este foi o seu primeiro emprego?

Eu comecei a trabalhar com 11 anos de idade, numa função extraordinária em um Clube de Alemães aqui na Vila Bastos, que tinha um boliche. Hoje os boliches são todos automáticos, aperta um botão e todos os pinos já levantam, mas antigamente não. Eu então estava capacitado profissionalmente para arrumar os pinos e devolver a bola para os caras(risos). Depois eu trabalhei numa lavanderia na rua Catequese, como entregador de roupa. E aí descobri, olha que loucura, que o primeiro empreguinho do Lula foi numa lavanderia, também de entregador de roupa. Não é legal?! Não é bonito?! Tem um monte de coisas que eu gosto de contar, que eu acho legal. 

Você também fez Senai?

SENAI eu não fiz, fiz a ETI. Quando eu tava aqui eu já tinha entrado na ETI Lauro Gomes, em São Bernardo, um tipo de SENAI de 2º Grau, que formava os profissionais para trabalhar naquele imenso pólo industrial que era o ABC naquela época. Me formei em desenhista projetista. Quando eu estava lá, estourou uma das greves históricas dos Metalúrgicos e eu me lembro do tumulto que ficou em São Bernardo. Aquilo me marcou muito e aí logo depois eu entraria no Sindicato dos Químicos. Então, foi tudo ao mesmo tempo. 

Esse contato mais próximo com a política se deu nos Químicos...

É, se deu aqui. Eu vi as greves estourando e aqui comecei a entender toda a situação e me identifiquei totalmente com aquele movimento. Tinha um clima muito forte no ar na época, era um momento histórico mesmo. O movimento sindical estava forçando a ditadura a acabar. Eu lembro que fiz charge do Figueiredo, depois, na seqüência, fiz muita charge do colégio eleitoral, do Sarney, depois Collor, Itamar. No governo Collor eu já tinha ido para o Sindicato dos Bancários de São Paulo também, como hoje, estou nos dois. Fiz 15 anos agora aqui e 10 lá. 

Você tem os primeiros cartuns que você desenhou para o Sindicato?

Tenho, mas são horríveis, são vergonhosos, mas eu gosto(risos).

Nessa trajetória, qual foi o momento mais importante para você? Não vale falar da eleição do Lula, que é um marco histórico para todo o movimento sindical...

O que foi bonito mesmo foi ter participado da montagem do departamento de imprensa aqui no Sindicato. Quando eu cheguei não tinha nada. Os pelegos deixaram o sindicato falido. Começar do zero foi legal, ter visto aquelas lideranças bacanas se formando, o Remi, por exemplo, estava começando a carreira dele e hoje é um grande sindicalista

Que, inclusive, integra o governo Lula

É, tá vendo?! É um grande nome. O Remi foi um cara que entrou aqui, montou o Departamento de Saúde e aquilo, sabe, cresceu num minuto. O Remi era um cara assim, que acreditava. Ele trabalhava de segunda a segunda, “25” horas por dia. Você não conseguia parar o Remi, parecia um andróide, trabalhava sem parar, que nem um doido. Foi legal ter visto essa geração e ter crescido junto com ela. 

Foi fácil adaptar seus cartuns para uma linguagem que os trabalhadores entendessem imediatamente a mensagem?
Não foi difícil. Em primeiro lugar, eu nunca fui intelectual. Nunca tive um trabalho enjoado, elitizado, daqueles que só uns poucos entendem. Sempre consegui falar com todos na boa, sem problema nenhum. Sempre tive uma linguagem popular. E como meu pai era metalúrgico foi fácil entender o perfil da categoria. A vida de peão para mim era muito natural. E logo começou a chegar o retorno. Os diretores me falavam: o pessoal adorou aquela tira, faz mais daquilo.

Até hoje ainda fazem esses comentários aqui no Sindicato...
O que eles gostam são as denúncias dos chefes. Quando você zoa com um chefe eles adoram, dão risada. Eles se sentem vingados, por causa de toda a opressão.

Fale de algumas campanhas e personagens que você criou para o Sindiquim..
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Lembro de uma campanha que era muito legal: “Horas extras matam e broxam”. Na época, os trabalhadores faziam muita hora extra. Eu cansei de fazer tiras tipo o cara que trabalhava muito e quando chegava em casa os filhos não o reconheciam e perguntavam: “Quem é você?”(risos). Em 86, eu criei o Caveirinha, simbolizando a insalubridade, a categoria química sempre teve muito esse problema. Lembro que, logo que entrei, a gente conseguiu fechar a fábrica Matarazzo, em São Caetano. Tinha umas pilhas gigantescas de enxofre, e os caras iam metendo a mão ali, toda a vizinhança implorava para fechar a fábrica, todo mundo sofria só de respirar aquele ar, imagina os caras que trabalhavam lá. Nos anos 70, a pelegada nunca se importou com isso. Logo que a oposição ganhou, esse foi um dos grandes pepinos para resolver. A fábrica já estava praticamente falida, então o jeito foi fechar logo aquela porcaria porque estava matando gente adoidado. Dava pena!

Você chegou a ver isso?

É, fui lá, aproveitei um dia que a “tropa” toda do sindicato foi. Naquela época eu ia em muita greve também, adorava ir. Olhava, conversava com a galera, pegava idéia. Teve uma coisa que foi genial. Eu fui numa negociação com a FIESP, foi demais!

Numa negociação salarial?

Sim, deixaram eu entrar. A galera toda foi e eu fui na cola deles. Lá na FIESP, na Paulista. Entrei na sala com aquela “mesona”, o sindicato de um lado, o presidente da FIESP da parte química e os patrões do outro, parecia um ringue, o clima era de guerra. Os patrões se retiravam toda hora pra conchavar... era um sarro (risos). Fiquei escondidinho no fundo da sala só fazendo as caretas dos caras. Quando voltei para o sindicato, fiz uma historinha de página inteira, eu tenho isso até hoje.

E a origem do Caveirinha?
Eu me inspirei num caso real – o patrão mandou o cara limpar uma dessas caldeiras, o cara ficou limpando lá dentro e não saía mais. Quando foram olhar, ele tinha morrido de tanto respirar o ar impregnado de produto químico. O caveira foi inspirado nesse caso. O trabalhador morre por causa da insalubridade e aí o espírito dele surge onde há risco para outros trabalhadores, uma espécie de guardião. Quando ele vê um cara fazendo uma coisa insalubre, ele aparece e fala que se ele continuar fazendo aquilo daquele jeito, vai morrer também. 

Seu trabalho tem influência de outros profissionais?

Quando entrei nos químicos, comecei a acompanhar alguns caras que trabalhavam com o movimento sindical. O Henfil, que já era famoso naquela época e era tão engajado politicamente que foi para as greves de São Bernardo, se apaixonou pelo movimento operário e ficou lá fazendo desenhos. Outro foi o Julinho de Grammont, que também tinha uma carreira na grande imprensa e foi para São Bernardo fazer a cobertura das greves; acabou se envolvendo com o movimento, pediu demissão e ficou trabalhando no Sindicato dos Metalúrgicos. Ele se apaixonou perdidamente pelo movimento sindical e acabou sendo um construtor desse movimento, ele é fundamental. Ele, o Henfil – os dois já falecidos – e o Laerte. Esses caras influenciaram meu trabalho sindical.

Você também se apaixonou pelo movimento sindical...
Também, nunca mais parei. O Sindicato foi minha grande escola, desenvolvi minha linha de trabalho aqui e não saio da imprensa sindical por nada. Se depender de mim, morro na imprensa sindical. Mas não descartei outras imprensas, todas que aceitam a minha linha de trabalho eu tô dentro. Eu sei que um grande jornal dá mais visibilidade, mas é evidente que não há a liberdade que eu tenho aqui. Eu prefiro mil vezes trabalhar na imprensa sindical, que é onde eu me sinto bem, em que eu me vejo num trabalho muito mais libertário, progressista, corajoso do que essa imprensa que vive maquiando, manipulando, disfarçando tudo.

Como você define a sua linha de trabalho?
Uma linha humanista, progressista. Que é valorizar o ser humano e não o capital, ao contrário da imprensa burguesa, que você pega essas revistas de economia e fica apavorado porque eles falam das pessoas como se fossem números. Quanto a pessoa vale, quanto ela custa. É grana, grana, grana, número, número, número!.. O meu trabalho sempre foi o contrário disso. Eu sempre tive esse engajamento, desde moleque eu tinha preocupações sociais. Então a imprensa sindical caiu como uma luva para mim. Eu poderia ter seguido a carreira de desenhista projetista, ou trabalhar em publicidade, que paga mais, mas eu não quis. Depois eu me formei em Artes Plásticas, poderia ser professor. Mas eu saquei que ser um cartunista político é que era a minha missão nessa vida!

Você já recebeu vários prêmios, quais deles você destacaria?
Eu tenho umas três/quatro medalhas de Salão de Humor. Tem uma que eu gosto muito, que foi do salão de Volta Redonda, em 93, onde ganhei a medalha de Humor Popular. Nesse prêmio, era o povão que votava no cartuns que mais gostou da mostra inteira. Eu ganhei. Depois ganhei mais uns prêmios, legais também, mas depois eu fiquei uns 8 anos sem me inscrever em nada. Já o prêmio Vladimir Herzog, que recebi agora em outubro, é outro papo. É uma comissão do Sindicato dos Jornalistas que seleciona trabalhos que ela considera que realmente contribui para a construção dos direitos humanos. É uma coisa extremamente política. Salão de humor é mais estético. Esse era o prêmio que eu queria ganhar, foi muito honroso e legal. A entrega foi no dia 25 de outubro, dois dias antes da eleição pra presidente, no Parlatino, no Memorial da América latina. Aí foi todo mundo de terno, e eu fui com a camiseta do Lula e do Genoino. Catei o prêmio e fiz um discurso arrasador falando da eleição, fui super aplaudido, catei o prêmio e sai super contente. Foi perfeito, extraordinário! E agora em janeiro ganhei o troféu Angelo Agostini, o pioneiro dos quadrinhos no Brasil, lá no século 19. É conferido pela Associação dos Quadrinistas e Cartunistas (AQC), ganhei o prêmio como um dos melhores cartunistas de 2002. São dois prêmios, um pertinho do outro, muito legal. Em 2002 também lancei dois livros, um com prefácio do Lula e do Ziraldo, que pegaram super bem. Então 2002 foi um super ano para mim.

O que você gostaria de ilustrar?
Quero ilustrar assim um Brasil muito melhor do que a gente tá vivendo hoje. Eu quero que esses quatro anos de governo Lula realmente dê certo, que muita coisa mude positivamente e eu quero ter o prazer e a honra de ilustrar isso. Meu desejo é que o governo Lula consiga mudar realmente a cara do país e que eu possa estar participando como cartunista desse processo. 

Em quais outras imprensas você publica o seu trabalho?
Eu faço muita revista de rock, erótica, de tatuagem, de adolescente, de GLS,católica, espírita, mas em todos os assuntos eu ponho política no meio. Eu consigo fazer uma coisa erótica, mas humanizada. Não é piada trouxa, baixaria. Meu trabalho é sem preconceito, sem estereótipos. Eu provei que é possível fazer isso sem cair na mesmice. Eu acho até que tenho um trabalho aí novo, de certa forma pioneiro. Eu não vejo ninguém fazer o que eu faço do mesmo jeito que eu faço. Você tem que desnudar a questão, para fazer as pessoas discutirem e quebrar o tabu, o preconceito. Eu já fiz zilhões de cartuns pra negro, mulher, gay, índio, deficientes, idosos, nunca excluí grupo algum do meu trabalho.E me sinto feliz de saber que contribuí com todos os movimentos sociais legítimos desse país. O cartunista não pode ficar em cima do muro. Não pode ser um cara bunda mole. A charge tem que ter força. A palavra charge vem do francês, quer dizer carga, de bomba mesmo. 

E você jogaria uma “charge” no governo Lula?

Não. Eu acho que a imprensa sindical não precisa fazer esse jogo sujo. Acho que a grande imprensa vai fazer, já tá fazendo, um motivo a mais para que eu não faça. Não vou ser um puxa-saco, mas posso continuar colocando as questões que acredito que sejam fundamentais para a democracia do Brasil. Todos os desenhos, charges, podem servir como um barômetro para o presidente Lula, para que ele não perca o eixo diante das pressões que evidentemente vai sofrer. A gente lutou tanto para ele chegar à presidência e agora vai ficar apedrejando? Isso não tem cabimento! A gente conhece toda a história do Lula, sei que ele não é um cínico que nem o FHC que nunca esteve do lado do povo. FHC sempre comeu caviar e dizia que gostava de comer buchada de bode. O Lula não é nada disso, ele é um cara consistente. Acho que a imprensa sindical tem que servir como um leme, um corrimão para o Lula não perder a direção. A gente conhece o cara, o cara conhece a gente de tantas batalhas, ele sabe que a gente é a imprensa em que ele pode confiar. E vice-versa!

 

 


 

 


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