Banner

Home
Quem é Baraldi
Personagens
Fotos
Cartuns e ilustrações
Charges
Jogo do Roko-Loko
Lojão
O que falam dele
Entrevistas
Prêmios
Podcast
Livro de visitas
Links
Blog
Twitter
Youtube
Fale comigo

 

Login



Portal Vermelho

Marcio Baraldi: sempre me indignei com a miséria e as injustiças!


Por Mônica Simioni

Cartunista, chargista, ilustrador e ex-grafiteiro, Marcio Baraldi é um dos mais respeitados profissionais atuantes no mercado. Circulando entre sindicatos, organizações sociais e movimentos, Baraldi acumula quase 20 anos de carreira, nos quais transpôs — com refinado humor — os anseios políticos e culturais do povo brasileiro. Trabalhadores, gays, idosos, crianças, movimento ecológico, de defesa dos animais, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), "sendo causa justa eu apoio", define o cartunista.
No Vermelho já publicamos charges do Baraldi em que o presidente dos Estados Unidos George W. Bush está de olho em Cuba e na Venezuela, denunciando sua política imperialista.
Mas além da abordagem política, outra especialidade de Baraldi é o rock´n´roll. "Sempre fui roqueiro e nessa praia eu nado sossegado. É que nem estar no quintal de casa", conta Baraldi, que está lançando este mês, com o apoio da Rock Brigade, uma das revistas mais antigas e respeitadas do segmento no Brasil e na América Latina, o segundo livro dos personagens "Roko-Loko e Adrina-Lina". O primeiro número saiu no ano passado e foi um tremendo sucesso, dando a Baraldi o prêmio Ângelo Agostini de melhor lançamento e de melhor cartunista de 2003.
"O rock foi um grito primal, espontâneo e necessário para a juventude (...) Veio para mudar o mundo e depois dele, o mundo e a juventude nunca mais foram os mesmos!", afirma o cartunista, que conversou exclusivamente com o Portal Vermelho.

Vermelho – Você começou cedo, grafitando contra a política da secretaria de cultura de Santo André. Como foi que a política entrou na sua vida?
Marcio Baraldi - Entrou cedo e naturalmente. Desde criança eu tinha sensibilidade para os problemas sociais. Lembro que quando era criança pequena eu já me sentia infeliz e revoltado ao me deparar com cenas de miséria e injustiça. Outra coisa que me revoltava profundamente era ver animais sendo maltratados ou mortos estupidamente. Como eu era criança e não podia fazer muito contra essa situação, me debruçava na mesa da cozinha e fazia montes de desenhos de animais se vingando do ser humano [risos].
Esse sentimento me marcou tão profundamente que anos depois, já como profissional, publiquei inúmeros cartuns e HQs [História em Quadrinhos] com o tema dos animais e da natureza se vingando do Homem. Também sempre desenhei para entidades ecológicas e de defesa dos animais. Perdi a conta de quantos desenhos fiz e pra quantas entidades eu desenhei.

Vermelho – Você trabalha para o Sindicato dos Químicos do ABC desde o começo da sua carreira. Como foi parar lá?
Baraldi - Comecei a trabalhar com onze anos de idade. Minha família era uma típica família proletária do ABC e tive que começar no batente bem cedo. Fui entregador de roupas numa lavanderia por muitos anos, depois, por coincidência, descobri que esse foi o primeiro emprego do Lula [presidente Luis Inácio Lula da Silva] também [risos]!
Até que, quando eu estava com uns 14 anos, surgiu a oportunidade de trabalhar no Sindicato dos Químicos do ABC, para montar e ilustrar os boletins e jornais. O sindicato tinha sido pelego na década de 70 inteira e tinha acabado de rolar eleições e uma diretoria combativa, liderada pelo Agenor Narciso, tinha acabado de tomar posse e montou um imprensa comprometida com os trabalhadores.
Eu comecei minha carreira trabalhando nessa imprensa e até hoje continuo lá. Definitivamente minhas raízes estão na imprensa sindical e popular combativa e de esquerda.

Vermelho – Essa convivência no sindicato influenciou de alguma forma o seu trabalho?
Baraldi - Totalmente! Descobri que eu tinha vocação definitiva pra militância política e social. No sindicato eu pude dar vazão aqueles sentimentos de revolta que eu tinha desde criança. Lá eu botava esse sentimento no papel, misturava com um pouco de graça e as pessoas adoravam o resultado. Era o máximo! Era o lugar certo pra mim.
Eu aprendi muito com a imprensa sindical mas também tenho certeza que eu a influenciei muito. Eu me envolvi tanto com ela que praticamente me fundi à ela, lhe dei uma nova cara, a deixei mais dinâmica, colorida e bem-humorada. Acredito ser o cartunista que mais produziu para a imprensa sindical e para os movimentos populares no Brasil. Virei praticamente um patrimônio da imprensa sindical brasileira [risos]!

Vermelho – Existem poucos chargistas que acompanham a política no país como você. E mais difícil ainda, no campo da esquerda. Por que isso acontece?
Baraldi - Se o chargista for um militante de esquerda convicto e trabalhar num jornal grande é bem mais difícil ele colocar o posicionamento ideológico dele nas charges. A grande imprensa tem sua própria ideologia, seus rabos presos, seus patrocinadores,etc, como todos nós sabemos, e é preciso muito jogo de cintura do profissional pra se manter coerente num ambiente desse. Eu, graças a Deus, achei meu lugar cedo na imprensa com a qual eu realmente me identifico ideologicamente, na qual me sinto em casa. Sei que a grande imprensa dá mais visibilidade pro chargista mas eu prefiro trabalhar num lugar menor mas com dignidade e liberdade maiores.

Vermelho – A charge é muitas vezes vista como uma produção artística marginal. Você acha que existe algum tipo de preconceito?
Baraldi - Nunca senti o menor preconceito por parte de ninguém por ter escolhido essa profissão. Pelo contrário, é uma profissão que exige boa cultura, senso de observação apurado, raciocínio rápido, agilidade, psicologia, alem de talento para o desenho e muito bom humor. Além disso é uma profissão muito charmosa ... [risos]
É a profissão que eu amo e nasci pra desempenhar. Só me trouxe alegrias na vida. Através dela conheci muita gente bacana das artes, da política, e pessoas do bem em geral. É uma profissão maravilhosa que te aproxima das pessoas e seu trabalho faz as pessoas se sentirem melhores, levando o senso critico a elas.

Vermelho – Você está lançando a segunda edição da Roko-Loko e Adrina-lina, que é tematizada no rock n" roll. Nunca teve vontade de abordar outros segmentos?
Baraldi - Nestes quase 20 anos de carreira, já desenhei para todos, ou quase todos, movimentos que você puder imaginar. Gays, lésbicas, trabalhadores, idosos, crianças, movimento ecológico, de defesa dos animais, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), sendo causa justa eu apoio.
Dentro da música, já desenhei para revista de pagode, de dance music, tenho personagem rapper... Mas o meu trabalho com o rock n" roll flui muito mais fácil porque eu sempre fui roqueiro e nessa praia eu nado sossegado. É que nem estar no quintal de casa.

Vermelho – Qual é a relação entre o rock e a política?
Baraldi - Total! O rock surgiu nos anos 50 como mais do que uma simples música, era um movimento reivindicatório de mudanças da juventude. A moçada daquela época não podia transar, as garotas tinham que casar virgens, não podiam fumar, beber, não podiam experimentar nada. Fora que não tinham uma música agitada para poderem se identificar, tinham que curtir as mesmas músicas que seus pais! Faltava um grito de liberdade para aquela geração, e o rock foi justamente esse grito. Por isso que as letras de rock sempre falaram tanto de "sexo, drogas e rock n" roll", porque eram justamente os tabus da época, as coisas que a juventude queria fazer, experimentar e não podia devido a moral repressora da época.
Na década seguinte, nos revolucionários anos 60, o rock se casou com a política de vez. Surgiu o movimento hippie, que usou o rock para combater a guerra do Vietnã e pregar seu sonho de paz e amor no mundo! Por isso que o rock nunca morreu, nunca foi uma moda passageira como tantas por aí. O rock foi um grito primal, espontâneo e necessário para a juventude. O rock veio para mudar o mundo e depois dele o mundo e a juventude nunca mais foram os mesmos!

Vermelho – Quando você cria tem essa perspectiva?
Baraldi - Sempre quis fazer cartum que acrescentasse alguma coisa na galera. Não apenas pra entretenimento. Nada contra, mas é a vocação de cada um. Eu gosto de fazer graça, quero que as pessoas se sintam bem. E também quero mexer com a cabeça delas, com um pouco de conteúdo e crítica no meio. Por isso, acabei ficando especialista nisso.
Houve uma época em que eu trabalhei para uma revista erótica. Foram seis anos. Aí, na época do apagão, eu fiz uma tirinha que era assim: o casal tava lá transando. Aí, de repente, apagavam as luzes e entrava um cara segurando uma vela. Aí o casal perguntava:"Ué, que é isso?". Aí ele respondia:"eu sou do Ministério do Apagão, vim segurar vela pra vocês [risos]". E os leitores adoravam, eu recebia muitas cartas.

Vermelho – Na Roko-Loko e Adrina-Lina atacam novamente!, como está inserida essa crítica?
Baraldi - Todas as historinhas foram escritas entre 1999 e 2001, então muitas mencionam o Fernando Henrique [ex-presidente do Brasil que implantou a política neoliberal no país]. Mas tem também a crítica ao conservadorismo, à industria cultural... Por exemplo, na primeira historinha, "O Nome da Rosa", a Adrina-Lina é atacada pelo cardeal Ratozinger, que é uma paródia do cardeal Ratzinger, que escreveu um livro em que satanizava o rock e retomava os valores mais conservadores da igreja, principalmente contra a mulher. Por isso, ela é perseguida e vai ser queimada numa fogueira. E quando o cardeal manda seu dragão atacar, ele tem três cabeças: o moralismo, a repressão e a hipocrisia.
Tem uma outra história que também é baseada em fatos reais: "À mestra com carinho". Essa tem uma personagem que é uma general, a Dona Sapatuskas, que era uma paródia de uma professora que escrevia pra Rock Brigade irada, dizendo que o rock era prejudicial a saúde dos jovens, que a gente tinha que ouvir era MPB. Aí tivemos meses de polêmica porque tinha os leitores, e até outros professores, que escreviam pra dizer que ela era maluca e defendiam o rock. E a gente publicava tudo. Aí, pra encerrar a novela eu bolei essa historinha. E ela dizia nas cartas que a gente devia ouvir só Vange Leonel, Angela Rô Rô, que são cantoras lésbicas, por isso, no final ela vai embora com uma delas.
Tem outra que chama-se "Raiva contra a Máquina", que é um esquema pra transformar a música sertaneja de qualidade, a caipira, essas que sempre foram boas, em porcarias só pra vender mais.
É a minha maneira de fazer a crítica, e funciona. A garotada gosta de rock e também curte essa linguagem. É isso que eu faço e o pessoal se amarra.

Vermelho – Para os jovens que gostariam de seguir a carreira de cartunista, o que você sugere?
Baraldi - Primeiro lugar, gostar muito do que faz. Segundo, desenhar muito, o tempo inteiro pra desenvolver o traço, não largar os estudos nunca e meter a cara no mercado de trabalho o quanto antes. Saber ser humilde e começar de baixo. Foi assim que eu fiz. Se deu certo pra mim, vai dar pra você também.

entrevista concedida para site www.vermelho.org.br em agosto/2004

 


Copyright © 2004-2009 – Marcio Baraldi – Por SGuerra@dEsign